Existe uma coisa que nenhuma câmera, por mais moderna que seja, consegue fazer por nós, decidir o que merece ser fotografado.
Eu gosto de equipamento, gosto de tecnologia e acredito que conhecer bem aquilo que temos nas mãos é fundamental. Técnica importa. Saber trabalhar com exposição, velocidade, abertura, foco, lentes e todos os recursos que uma câmera oferece nos dá liberdade para resolver situações diferentes.
Mas existe um momento em que precisamos parar de olhar tanto para o equipamento e começar a olhar de verdade para aquilo que está diante de nós.
Vejo muitas pessoas entrando na fotografia muito preocupadas em descobrir a configuração correta para cada situação. Mexem no menu, alteram o modo de foco, procuram uma função, conferem exposição e tentam encontrar uma espécie de fórmula que diga como aquela fotografia deve ser feita.
Só que, enquanto tudo isso acontece, muitas vezes a própria cena já mudou.
Por isso, antes de pensar em qual configuração utilizar, existe uma pergunta que considero muito mais importante:
O que exatamente chamou minha atenção nessa cena?
Talvez tenha sido a luz, uma sombra, uma cor, uma textura, a relação entre uma pessoa e o ambiente, o tamanho de uma paisagem ou simplesmente uma sensação que aquele lugar provocou.
Quando conseguimos identificar isso, começamos a fotografar com intenção.
E, para mim, intenção é uma das coisas que mais ajudam um fotógrafo a construir sua própria linguagem.
Nem sempre encontramos a luz perfeita
Existe uma ideia muito difundida na fotografia de que precisamos estar sempre no lugar certo, exatamente na melhor hora do dia, esperando a primeira ou a última luz.
É claro que, quando podemos planejar dessa maneira, ótimo. A luz do começo e do final do dia oferece possibilidades maravilhosas e faz parte do nosso trabalho tentar aproveitar esses momentos.
Mas a fotografia real nem sempre acontece assim.
Eu trabalho também realizando fotografias de viagem para revistas e, nessas situações, enfrento isso constantemente. Podemos pesquisar, planejar e sair com a intenção de chegar a determinado lugar no melhor horário, mas existe um roteiro a cumprir, há um receptivo, um motorista, horários de funcionamento, deslocamentos e uma programação que muitas vezes envolve vários lugares no mesmo dia.
Às vezes o local simplesmente não abre antes. Em outras situações, não existe autorização para entrar no horário que gostaríamos. Há dias em que chegamos quando o sol já está alto, a luz está dura, ou então o tempo vira, fica nublado, chove, a luz simplesmente não aparece como imaginávamos.
E isso faz parte.
Num trabalho de viagem, muitas vezes você vai para uma cidade, para uma região ou para um destino com dias contados. Nem sempre existe a possibilidade de voltar no dia seguinte ou esperar a condição ideal. Às vezes a fotografia acontece de uma forma diferente daquela que você planejou e, em outras, ela simplesmente não acontece.
E está tudo bem também.
Faz parte do trabalho entender que existem coisas que não controlamos. O que podemos controlar é a maneira como reagimos a essas condições e o quanto estamos atentos para tentar fazer a melhor fotografia possível com aquilo que o momento está oferecendo.
Se o céu está nublado, talvez a luz fique mais uniforme e ajude em determinado tipo de cena. Se o sol está forte, talvez as sombras criem possibilidades interessantes. Se a paisagem aberta não funciona, talvez seja hora de procurar detalhes, pessoas, arquitetura, texturas ou outras relações dentro daquele ambiente.
Não se trata de forçar uma fotografia a qualquer custo, mas de aprender a interpretar a condição que temos naquele momento.
E, para mim, isso também é fotografar.
Equipamento importa, e faz diferença
Também não acredito nessa história de que equipamento não importa.
Importa, sim.
No trabalho profissional, a escolha da câmera, da lente e dos recursos que temos disponíveis pode fazer muita diferença no resultado. Uma lente correta pode mudar completamente a forma como você constrói uma cena, aproxima um assunto, cria profundidade, comprime planos ou mostra a dimensão de um lugar.
O que muda é entender que o equipamento precisa estar a serviço da fotografia que você quer fazer.
Às vezes eu chego a um lugar com uma ideia na cabeça e, olhando melhor para a cena, percebo que outra lente pode funcionar melhor. Em outras situações, entendo que aquela paisagem talvez ganhe muito mais força vista de cima e, se posso utilizar um drone naquele local, ele passa a ser a ferramenta certa para aquilo que quero mostrar.
Então não é uma questão de diminuir a importância do equipamento. Muito pelo contrário.
É conhecer bem as ferramentas que você tem, entender o que cada uma pode entregar e saber escolher aquilo que melhor traduz a cena naquele momento.
Porque olhar, técnica e equipamento não precisam disputar espaço.
Quando trabalham juntos, a fotografia ganha força.
Fotografar um lugar não é apenas fotografar o cartão-postal
Quando vou para uma cidade ou para um destino que ainda não conheço, gosto de pesquisar antes. Quero saber o que existe ali, quais são os pontos mais conhecidos, como o sol se comporta em determinadas regiões e quais imagens normalmente são feitas daquele lugar.
Mas essa pesquisa não serve apenas para descobrir onde todo mundo fotografa.
Ela também serve para tentar encontrar outras possibilidades.
Existem lugares em que determinada imagem se tornou tão conhecida que dezenas ou centenas de pessoas estão tentando fazer exatamente a mesma fotografia. E não existe nada de errado em fazer o cartão-postal. Dependendo do trabalho, inclusive, ele precisa estar lá.
Mas não podemos parar nele.
Muitas vezes alguns metros de deslocamento já mudam completamente uma fotografia. Um passo para a direita, outro para a esquerda, uma posição mais baixa ou a inclusão de algum elemento próximo podem transformar uma cena que parecia igual a tantas outras.
É aí que entra novamente a intenção.
Quando chego diante de uma cena, tento entender o que quero mostrar daquele lugar. Quero mostrar sua grandiosidade? Sua arquitetura? O movimento das pessoas? A relação daquele espaço com a cidade? Quero mostrar um detalhe que talvez passe despercebido por quem simplesmente atravessa aquele lugar?
Essas perguntas começam a determinar como vou fotografar.
O primeiro plano também conta a história
Uma coisa que percebo bastante é que muitas vezes ficamos tão encantados com aquilo que está ao fundo que esquecemos de olhar para o que existe perto de nós.
Isso acontece muito em paisagens.
A pessoa vê uma montanha maravilhosa, um vale, um rio ou uma grande extensão e imediatamente aponta a câmera para aquilo. Só que, dependendo da composição, a fotografia fica distante, falta alguma coisa que conduza o olhar para dentro dela.
É aí que um primeiro plano pode mudar completamente a imagem.
Pode ser uma pedra, uma vegetação, uma árvore, uma cerca, uma pessoa, um barco ou qualquer outro elemento que faça sentido naquele contexto.
Além de ajudar na composição, ele pode criar profundidade, dar dimensão à paisagem e, principalmente, contextualizar aquilo que estamos vendo.
Uma pessoa pequena diante de uma montanha, por exemplo, pode mostrar imediatamente a escala daquele lugar. Um barco em um rio pode trazer dimensão e ao mesmo tempo contar alguma coisa sobre a relação das pessoas com aquele ambiente.
O elemento não precisa estar ali apenas para preencher a fotografia.
Ele precisa fazer parte dela.
Quando isso acontece, a imagem deixa de ser somente uma paisagem bonita e começa a contar alguma coisa.
Na natureza, olhar para o todo também significa procurar os detalhes
Na fotografia de natureza acontece algo parecido.
Quando estamos diante de um cenário extraordinário, existe uma tendência natural de querer colocar tudo dentro do quadro. Queremos registrar a montanha inteira, o céu, a vegetação, o rio, todo o ambiente.
Mas nem sempre a fotografia está no conjunto inteiro.
Às vezes ela está na relação entre apenas dois elementos daquele cenário.
Pode estar numa textura de pedra iluminada lateralmente, numa árvore isolada, numa sequência de montanhas criando camadas, num reflexo ou em um animal pequeno inserido em um ambiente enorme.
Por isso eu gosto de olhar a cena no contexto antes de fotografar. Primeiro tento entender o lugar, depois vou desmontando aquilo visualmente e procurando o que existe dentro dele.
É quase como descobrir várias fotografias dentro de uma única paisagem.
E isso só acontece quando deixamos de pensar apenas no assunto principal e começamos a perceber tudo aquilo que está em volta dele.
Às vezes o problema não é o lugar, é o costume
Também escuto muitas vezes que determinada cidade não tem nada bonito para fotografar ou que a pessoa precisa viajar para conseguir produzir imagens interessantes.
Eu não acredito muito nisso.
É claro que alguns lugares oferecem cenários espetaculares e possuem uma força visual imediata. Mas muitas vezes deixamos de enxergar aquilo que está perto justamente porque estamos acostumados demais.
Passamos pela mesma rua todos os dias, vemos o mesmo prédio, a mesma praça, a mesma árvore e a mesma paisagem dezenas de vezes e, aos poucos, aquilo deixa de chamar nossa atenção.
Quando viajamos acontece exatamente o contrário. Estamos alertas. Tudo é novo. Olhamos para fachadas, placas, pessoas, janelas, texturas e situações que provavelmente ignoraríamos se estivessem na nossa própria cidade.
Talvez o verdadeiro exercício seja tentar recuperar essa curiosidade, olhar novamente para aquilo que já conhecemos e perguntar se existe alguma coisa ali que ainda não percebemos.
A identidade começa nas escolhas
Com o tempo, todas essas pequenas decisões começam a construir alguma coisa maior.
A maneira como você utiliza a luz, os assuntos que chamam sua atenção, a distância que gosta de trabalhar, a forma como organiza os planos, os elementos que escolhe colocar ou retirar do quadro e até o momento em que decide apertar o botão começam a formar uma linguagem.
E isso não acontece porque alguém escolheu uma determinada configuração de câmera.
Acontece porque aquela pessoa começou a fotografar de acordo com aquilo que realmente chama sua atenção.
Talvez um dos grandes momentos na trajetória de um fotógrafo seja quando alguém olha para uma imagem e, antes mesmo de ver o crédito, reconhece de quem ela é.
Quando alguém diz: “Essa foto tem a cara dele.”
Isso é identidade.
E identidade não nasce de um preset, de uma câmera ou de uma lente. Ela vai sendo construída aos poucos, nas escolhas, na forma de interpretar uma cena, naquilo que você procura quando chega a um lugar e, principalmente, na maneira como transforma aquilo em fotografia.
No final, tudo começa antes do clique
Hoje temos equipamentos extraordinários, câmeras cada vez mais rápidas, sistemas de foco impressionantes, lentes incríveis, drones que nos permitem enxergar paisagens por ângulos que antes seriam praticamente impossíveis.
E eu gosto de tudo isso.
Uso tecnologia, procuro conhecer os recursos que tenho e acredito que equipamento faz diferença.
Mas, antes de qualquer equipamento, ainda existe aquele momento em que você chega diante de uma cena e precisa entendê-la.
Às vezes a melhor fotografia está diante de você, às vezes está alguns metros para o lado, às vezes está num detalhe, às vezes pede uma lente diferente e, em outras, você percebe que aquela cena só vai mostrar sua verdadeira dimensão vista do alto.
É esse exercício que, para mim, faz parte da fotografia, entender o que chamou minha atenção, perceber o que aquele lugar está oferecendo naquele momento e escolher a melhor maneira de transformar isso em imagem.
Depois vem a câmera, vem a lente, vem a configuração.
Porque o clique, no fim das contas, é só a última parte da fotografia.